ASTRONOMIA

Essa é uma das principais conclusões da missão americana Deep Impact (“impacto profundo”), que realizou o primeiro choque de uma nave espacial com um cometa, em 4 de julho deste ano.
“O que vimos é que, pelo menos nas primeiras dezenas de metros de profundidade, os cometas são extremamente frágeis. Não vimos nenhum sinal de uma camada sólida”, disse ontem em uma teleconferência o astrônomo Michael A’Hearn, da Universidade de Maryland (Estados Unidos), chefe da equipe responsável pela sonda enviada pela Nasa para uma explosiva colisão com o cometa Tempel 1. “E eu não estou convencido de que haja na verdade um núcleo sólido lá embaixo.”
Ou seja, em vez de ser feito de grandes pedaços de rocha e gelo, o cometa provavelmente é constituído de grãos muito pequenos e finos, reunidos apenas pela força da gravidade. A densidade do objeto é ridiculamente baixa, segundo A’Hearn. “Descobrimos que de 75% a 80% do núcleo é espaço vazio. A porosidade é muito alta.”

Origens

A descoberta é de certo modo surpreendente e pode, no final, mudar a forma como os cientistas vêem a formação do Sistema Solar. Mas não sem muitos outros estudos e análises, dizem os pesquisadores. “É prematuro tentar aplicar os dados que coletamos -e que ainda não entendemos completamente- à origem do Sistema Solar”, explica A’Hearn.
A idéia é que os cometas, assim com seus primos sem gelo, os asteróides, sejam restos do material existente ao redor do Sol que teria originado os planetas. Também especula-se que os cometas possam ter sido semeadores dos ingredientes da vida na Terra, trazendo água e compostos orgânicos a este mundo por meio de colisões, na época em que os planetas eram apenas recém-nascidos.
Os dados coletados pela Deep Impact -espaçonave composta por uma sonda de observação e um projétil de impacto- apóiam essa visão, segundo A’Hearn. “Eu diria que essa hipótese seja mais provável agora, pois vimos um grande aumento na presença de material orgânico [após a colisão do projétil com o Tempel 1].”
A natureza dos compostos orgânicos levantados pela poeira produzida pelo impacto ainda não foi completamente revelada (“ainda não podemos dar números, estamos trabalhando na identificação [das substâncias]”), mas os cientistas já notaram uma grande presença de cianeto de metil, composto que só havia sido detectado em grande quantidade num cometa uma vez, numa observação astronômica que foi tida como duvidosa até a Deep Impact demonstrar sua veracidade.

Buraco da pesquisa

Uma coisa que os cientistas ainda não conseguiram encontrar foi a cratera produzida pelo impacto do projétil -a pancada levantou muita poeira e dificultou a visibilidade para as câmeras a bordo da nave, que viu tudo de perto.
“Achamos que abrimos um buraco com mais ou menos cem metros de largura, para explicar a quantidade de material ejetado, mas para saber a profundidade só mesmo se encontrarmos a cratera”, diz A’Hearn. “Pode ter sido 10 metros, 15 metros, 20, 30 metros.”
A não-visualização da cratera foi a única decepção da missão, que custou cerca de US$ 333 milhões aos cofres da agência espacial americana. A falha se deu por conta de problemas com a resolução da câmera principal, detectados após o lançamento. “Criamos novos métodos de processamento que restauraram a capacidade da câmera para todas as coisas, exceto para a visualização da cratera”, explica o cientista. Mas eles ainda não perderam a esperança.
“Há um traço no local do impacto que conseguimos visualizar por dois diferentes métodos de processamento da imagem, então sabemos que não é um artefato”, diz. Pode ser o que eles procuram, mas mais análises serão exigidas.

Outros dados

O conjunto de resultados científicos foi publicado online ontem pela revista “Science” (www.sciencexpress.org). Além de um estudo do pessoal da missão, liderado por A’Hearn, também foram publicados dois outros artigos. Num deles, Karen Meech, da Universidade do Havaí, e colegas reportaram os dados obtidos durante a observação coordenada do impacto por mais de 80 telescópios ao redor do mundo. Eles constataram que, cinco dias após o impacto, o Tempel 1 já havia se acalmado, mostrando a mesma aparência de antes da pancada.
No outro, Horst Uwe Keller, do Instituto Max Planck, na Alemanha, e colegas relataram o que a sonda Rosetta (enviada da ESA, Agência Espacial Européia, a um outro cometa e que está no momento a caminho de seu alvo) viu do impacto, durante 17 dias de observação a 80 milhões de quilômetros de distância do evento. Os cientistas usaram um dos instrumentos da sonda para analisar basicamente a composição de poeira levantada pelo choque.