CASO VILAS BOAS

Nunca o publiquei antes em português. Dele só existem uma versão em espanhol e reproduções, resumidas e algumas vezes incorrectas, em revistas e livros estrangeiros especializados nesse assunto.
O motivo de tê-lo conservado inédito para o grande público, durante tanto tempo, é simples: eu queria ter a certeza de que, se surgisse alguém contando um caso semelhante, isso não seria resultado de sugestão consciente ou inconsciente provocada pela minha reportagem.

Vários anos já se passaram e, ao que eu saiba, não houve incidente igual ou parecido. Não há mais razão, portanto, para manter essa história inédita.
Antes de mais nada, quero aqui esclarecer, mais uma vez, a minha posição diante desse apaixonante e controvertido assunto. Durante muitos anos tenho sido um caçador profissional de “discos voadores”: e como um profissional sou frio e cético, embora de mente aberta.

A esta altura, só tenho uma certeza: a de que, filtrados com o máximo rigor todos os casos de engano, mistificações, sugestões individuais ou de massa, megalomania ou simples “cuca fundida”, subsiste um número considerável de observações que não podem ser enquadradas como qualquer fenômeno cientificamente classificado.

Observações feitas por gente altamente qualificada e responsável.
Dentre muitas, lembro apenas uma, para breve: a que foi feita por vários oficiais aviadores, sargentos e praças da Base Aérea de Gravataí, no Rio Grande do Sul, e por muitos civis das redondezas, em 24 de outubro de 1954.

Durante mais de duas horas, dois objectos evoluíram sobre a área, numa tarde de céus sem nuvens e visibilidade ilimitada. O incidente foi relatado num comunicado oficial do Coronel Hardman, comandante da Base, e poucos dias depois o Brigadeiro Gervásio Duncan, então chefe do Estado Maior da Aeronáutica, forneceu à imprensa, numa entrevista colectiva, os relatórios dos oficiais.

Perguntado sobre o que seriam aqueles objectos, limitou-se a dizer que os factos ali estavam, os testemunhos eram irrefutáveis, mas não havia nenhuma conclusão a tirar.
Esse episódio, com a apresentação dos oficiais, foi também um dos ítens de uma conferência que o então Coronel João Adil de Oliveira, chefe do Serviço de Informações do Estado Maior da Aeronáutica, pronunciou na Escola Superior de Guerra, em 2 de novembro de 1954.

Minha posição é semelhante à das autoridades citadas: existe o fenómeno denominado vulgarmente de “discos voadores”. Se são objectos sólidos ou fenómenos naturais ainda desconhecidos, se são dirigidos ou tripulados, se vêm de algum planeta do nosso Sistema Solar ou de outro Sistema da nossa galáxia – isso eu não sei.

Por isso, durante os últimos anos, só me interesso por casos alegados contatos diretos com esses misteriosos objetos e seus possíveis ocupantes.

No meu entender, apenas um caso comprovado cabalmente de um contacto directo poderá trazer alguma luz sobre o enigma. É o que mais atrapalha nessa pesquisa racional e objetiva são os místicos, os obcecados, os histéricos, os falsos cientistas com teorias e palavras pomposas, o blá-blá-blá vazio dos fanáticos pelo assunto.

VILLAS BOAS

A história que vou contar foi investigada directamente por mim, pelo Dr.Olavo Fontes (um dos mais sérios pesquisadores do fenómeno e na época representante, no Brasil, da Aerial Phenomena Research Organization – APRO – dos Estados Unidos) e por uma autoridade militar em caráter extra oficial.

A testemunha foi submetida aos mais modernos e requintados métodos de interrogatório, sem cair em contradições. Resistiu a todas as armadilhas para averiguar se estava à procura de notoriedade ou de dinheiro.

Foi sujeita a um completo exame médico, físico e psíquico, demonstrando perfeito equilíbrio. Seu conceito, na região em que residia, era o de um homem honesto, sério e trabalhador.

O maior elemento de credibilidade da sua narrativa, entretanto, resultou do exame clínico, cujo resultado darei no final desta matéria.
António Villas Boas

ERA UMA ESTRELA VERMELHA QUE DESCIA À TERRA

Eis a fascinante narrativa, feita em 22 de fevereiro de 1958:
“Meu nome é António Villas Boas. Tenho 23 anos de idade e vivo com minha família em uma fazenda que possuímos próximo à localidade de São Francisco de Sales, em Minas Gerais, perto da fronteira com São Paulo.
Tenho dois irmãos e três irmãs. Sou o penúltimo filho. Todos nós, os homens, trabalhamos na fazenda. Temos muita plantação e vários roçados, e possuímos um trator a gasolina para a aragem da terra.

Em época de cultivo, trabalhamos com o tractor em dois turnos. À noite, em geral, trabalho eu. Sou solteiro e tenho boa saúde. Trabalho muito e faço um curso por correspondência. Achei que era meu dever vir contar os estranhos acontecimentos em que estive envolvido.

Gostaria contudo de voltar o mais depressa possível, pois me preocupa a situação em que deixei a fazenda.
Na noite de 15 de outubro eu estava sozinho trabalhando com o tractor. A noite estava fria e o céu muito limpo, com estrelas. À uma hora da madrugada, vi, de repente, uma estrela vermelha no céu, parecia uma dessas estrelas maiores, de brilho forte. Mas não era, pois começou a aumentar rapidamente de tamanho, como se estivesse vindo em minha direcção. Tão depressa que, antes que eu pudesse pensar no que devia fazer, já estava por cima do tractor.

Aí parou de repente e desceu até ficar a 50 metros acima de minha cabeça, iluminando o tractor e o chão em volta como se fosse dia, com uma luz vermelho-clara tão forte que dominava a luz dos faróis do tractor. Fiquei apavorado, pois não sabia o que era aquilo. Pensei em saltar e sair correndo, mas a terra fofa, revolvida pelas pás do tractor, seria um obstáculo difícil.
Fiquei naquela agonia talvez uns dois minutos, mas aí o objeto luminoso se moveu para a frente e começou a descer bem lentamente, uns 10 a 15 metros adiante.

Era um aparelho estranho, de forma meio arredondada, todo rodeado de luzes arroxeadas e com um grande farol vermelho na frente. Parecia um grande ovo alongado, com três esporões metálicos na proa, envolvidos por uma luz fluorescente. Na parte superior, havia uma coisa que girava a grande velocidade, também emitindo uma luz fluorescente avermelhada.

Essa luz foi mudando para um tom esverdeado quando o aparelho pousava, diminuindo a rotação do que parecia uma cúpula achatada. Mesmo com o aparelho parado, ela não parou de girar, a baixa rotação. A poucos metros do solo, três pernas metálicas surgiram de baixo do aparelho, formando um tripé.

CORPO A CORPO COM O ESTRANHO HOMEM ESPACIAL

Descontrolado, pus o tractor em movimento, mas não cheguei a percorrer muitos metros: o motor morreu e, ao mesmo tempo, os faróis se apagaram.
Tentei arrancar de novo, mas o motor de arranque não deu sinal de vida.
Saltei ao chão e comecei a correr, mas tinha perdido um tempo precioso tentando ligar o tractor. Não dera alguns passos quando fui agarrado pelo braço. Meu perseguidor era um sujeito baixo, da altura do meu ombro, vestido com uma espécie de macacão e a cabeça coberta por um capacete.
Girei o corpo com violência e dei-lhe um empurrão tão forte que o desequilibrou e caiu de costas a uns dois metros de distância. Mas aí fui atacado por três outros, pelos lados e pelas costas. Me pegaram pelos braços e pernas e me levantaram.

Me debatia mas a pegada deles era firme. Comecei a gritar por socorro e a xingá-los. Notei que minha gritaria os deixava espantados ou curiosos, pois a caminho do aparelho pararam e me olharam com atenção, mas sem me largarem.
O aparelho estava a uns dois metros do chão , sobre o tripé. Tinha uma porta aberta na metade traseira, com uma escada metálica – do mesmo metal prateado do corpo do objecto. Fui içado por ali, coisa nada fácil para eles.

Uma vez lá dentro, penetramos numa pequena saleta quadrada, iluminada fortemente por muitas lâmpadas fluorescentes, pequenas e quadradas, embutidas no metal em volta do tecto. Não havia ali nenhum móvel ou aparelho.

Os sujeitos eram cinco e me levaram para outra sala, bem maior e de forma meio oval. A essa altura, eu estava mais quieto, mesmo porque a porta que dava para fora tinha se fechado e eu não tinha outra escolha. Essa outra sala, com as paredes do mesmo metal prateado e polido, tinha uma coluna que ia do tecto até o chão, larga em cima e afinando bastante no meio. Parecia maciça.

Acho que ali era o centro do aparelho. Num dos lados havia uma mesa esquisita, rodeada de várias cadeiras giratórias sem encosto, como essas dos bares, mas tudo de metal.
Durante vários minutos, fiquei de pé, seguro pelos braços por dois sujeitos enquanto todos conversavam. Digo conversavam, mas na verdade o que eu ouvia não era fala de gente: era uma espécie de ganidos, parecidos com os uivos de um cachorro.

Essa semelhança era bem pequena, mas é a única que posso dar para aqueles sons: lentos, uns mais longos, às vezes com vários sons diferentes ao mesmo tempo, outras com um tremido no fim.

Quando aqueles ganidos terminaram, parece que tinham resolvido o que fazer comigo, pois os cinco me agarraram e começaram a tirar minhas roupas à força. Eu resisti, mas eles, embora usando força, não me machucaram.

NO INTERIOR DA NAVE, O SANGUE CORRE SEM DOR

Fiquei inteiramente nú, já de novo angustiado. Um deles então se aproximou com uma espécie de esponja e começou a passar um líquido por toda a minha pele. Um líquido claro mas bem grosso e sem cheiro, que secava depressa.

Fui então conduzido por três deles para outra porta na direcção oposta à que tínhamos entrado. Ela se abria para dentro em duas metades. Ia do teto até o chão e tinha, na parte de cima, uma espécie de letreiro luminoso, com uns rabiscos diferentes das nossas letras. Essa porta dava para uma saleta menor, quadrada.
Quando olhei para trás, a porta se fechara e não havia sinal dela, apenas uma parede lisa. Depois se abriu outra vez e entraram dois deles, trazendo dois tubos de borracha ou algo parecido, vermelhos, bem grossos, com mais de um metro de comprimento cada um.

Um desses tubos foi adaptado numa das pontas de um recipiente transparente em forma de cálice. A outra ponta tinha um biquinho em forma de ventosa, que foi aplicado na pele do meu queixo.

Vi meu sangue entrar pouco a pouco no cálice, enchendo-o até a metade. Não senti dor, apenas a sensação de que a pele estava sendo sugada. Depois o lugar ficou ardendo e, mais tarde, vi que tinha ficado esfolado.

Em seguida, fizeram a mesma coisa do outro lado do meu queixo, e o cálice desta vez se encheu de sangue. Feito isso, saíram e eu fiquei sozinho por muito tempo, não sei ao certo quanto.
Nessa sala havia apenas uma espécie de divã no centro, de matéria esponjosa e incómodo para deitar, pois era alto no meio. Sentei-me ali, cansado de tanta luta e emoções, e foi então que senti um cheiro estranho e comecei a ficar enjoado.

Era como se estivesse respirando uma fumaça que dava a impressão de pano pintado sendo queimado. Examinando as paredes, vi uma porção de tubinhos metálicos, cheios de furinhos, dos quais saía uma fumacinha cinzenta que se dissolvia no ar. O enjôo aumentou e acabei vomitando num canto.
Até aquele momento, não sabia como eram aqueles sujeitos nem que feições tinham. Todos estavam metidos nos macacões cinzentos e com capacetes reforçados atrás e na frente por lâminas de metal fino, uma delas triangular, à altura do nariz.

Esse capacete tinha apenas dois vidros redondos: através deles percebi olhos bem menores que os nossos, talvez por efeito dos vidros. Acima do olhos, os capacetes tinham uma altura que devia corresponder ao dobro da largura de uma testa normal. Do meio da cabeça saíam três tubos redondos e prateados, que iam se embutir nas costas do macacão.

As mangas se uniam a luvas grossas, da mesma cor cinzenta, com cinco dedos. As calças e os sapatos pareciam unidos, estes últimos com solas muito grossas e parecendo muito grandes. Não vi bolsos nem botões. Mas em todos havia, à altura do peito, uma espécie de escudo vermelho que emitia reflexos luminosos.

Desse escudo partia uma tira de tecido prateado, ou metal laminado, que se unia a um cinto largo e justo, sem fivela ou presilha. À exceção do que me agarrou primeiro, todos eram mais ou menos de minha altura descontadas as solas grossas e o capacete alto, isso poderia dar cerca de 1m e 57 centímetros de altura.

AMOR À FORÇA

Depois de um intervalo grande, a porta se abriu e tive uma surpresa enorme. Uma mulher entrou. Sem macacão e sem capacete. Inteiramente despida. Cabelos de um louro quase branco, lisos e ralos. Pequena, cerca de 1 metro e 35 centímetros de altura. Olhos azuis, rasgados. Nariz reto. Maçãs do rosto muito salientes. Para baixo, o rosto se afinava muito, terminando num queixo pontudo. Lábios muito finos, quase invisíveis.”

A transição do depoimento de António Villas Boas está sendo feita de modo resumido e numa linguagem corrigida e concatenada. Neste ponto, como nos filmes americanos de antigamente, faz-se necessário um corte.

É impossível reproduzir todas as minúcias do relatório. Mas não é difícil imaginar. Sendo um homem do interior, ele só a muito custo entrou em detalhes pedidos pelos interrogadores. O que se pode dizer é que as intenções da tal mulher, ou lá o que fosse, eram claras e acabaram se tornando irresistíveis.

Houve o que se poderia chamar de miscigenação interplanetária. E aqui cabem algumas interrogações: seria ela um exemplar feminino normal de outra raça, semelhante aos que estavam metidos nos macacões – e nesse caso o gás que enjoou António era uma mistura com o fim de tornar o ambiente respirável para ela?

Ou seria uma “cria”, resultado já de algum cruzamento com terrestres? Ou uma cobaia de nosso planeta criada por eles para experiências de reprodução? Segundo o fazendeiro, ela emitia os mesmos grunhidos dos outros.
Retomemos o extraordinário relato:

ELE, ELA E UM GESTO VOLTADO PARA O CÉU

“Pouco depois de nos termos separado, a porta se abriu. Um dos sujeitos apareceu e ela saiu. Mas antes de sair voltou-se para mim e, com uma espécie de sorriso, apontou para mim e depois para o alto. “

O depoimento prossegue e nele está dito que devolveram as roupas do António e o levaram até a escadinha, fazendo-lhe sinal para que descesse. De baixo, ele olhou para cima e um dos sujeitos apontou para ele, depois para si mesmo e em seguida para o céu, na direção sul.

E fez sinal ainda para que ele se afastasse. Há muitos outros detalhes que não vêm ao caso, pois alongariam demais esta narrativa e se prendem exclusivamente a aspectos físicos do aparelho.
Para a decolagem, o aparelho se elevou um pouco e as pernas do tripé foram se recolhendo dentro de si mesmas, como partes de uma antena de automóvel, até desaparecerem no bojo inferior.
Depois o objeto continuou a se elevar lentamente até uns 50 metros. Parou por instantes, enquanto sua luminosidade se tornava mais forte. A cúpula girou mais velozmente, sua luz passou por várias tonalidades até ficar de um vermelho vivo. E então, num movimento brusco, com um zumbido, inclinando-se ligeiramente, partiu como uma bala na direção do sul.

Em poucos segundos ficou do tamanho de uma estrela e sumiu no céu. Pelos cálculos, António Villas Boas teria ficado dentro dele cerca de quatro horas.

NÃO É SIMPLESMENTE MAIS UMA HISTÓRIA

Até aqui, esta história, apesar de diferente de todas as outras de alegados contatos com tripulantes de discos, seria apenas “mais uma história”, sem provas que levassem a uma convicção maior.

No entanto, no exame clínico rigoroso que sofreu, nas perguntas de carácter médico que lhe foram feitas, referentes ao que lhe aconteceu depois do incidente, ficou claramente um quadro que leva à conclusão de que ele teria ficado exposto a uma quantidade de radiação não fatal mas bastante para provocar vários sintomas, por vários meses, tais como:

• Insónia, cansaço, dores de cabeça, dores por todo o corpo, náuseas, dores de cabeça, perda de apetite, ardência nos olhos e lacrimejamento permanente, lesões cutâneas provocadas por qualquer leve contusão e mesmo sem qualquer contusão, manchas amareladas que desapareceriam no fim de dez a vinte dias.

As lesões, que continuaram a aparecer durante meses, tinham o aspecto de pequenos nódulos avermelhados, mais duros do que a pele em volta e salientes, dolorosos à pressão, com um pequeno orifício central que deixava escapar uma serosidade amarela. A pele em volta apresentava “uma área hipercrônica, violácea”.

Por outro lado, por muitos meses ainda eram visíveis “duas pequenas manchas hipocrômicas, uma de cada lado do queixo, de forma mais ou menos arredondada; a pele que cobre essas regiões se apresenta mais lisa e adelgaçada, como se tivesse sido renovada ou fosse algo atrofiada.”

Rigorosos exames médicos foram feitos em António Villas Boas

VERDADE OU NÃO, CADA UM QUE DÊ SEU VEREDICTO

Supondo-se que António Villas Boas tenha inventado uma história absolutamente original, tenha resistido excepcionalmente a interrogatórios quase cruéis e a todas as formas (menos as violentas) de coação para confessar que estava mentindo, e também a todas as tentativas de ganhar fama e dinheiro.

Temos de supor também que ele estivesse preparado cientificamente para responder a perguntas de ordem clínica de forma a apresentar um quadro lógico de sintomas – e ainda por cima tivesse arranjado um meio de provocar em si mesmo lesões como as descritas acima.

Por tudo isso a sua história, dentre todas as de contato directo, é a que parece mais convincente.

Para os investigadores frios – entre os quais me incluo – ela ainda não convence de todo. Permaneceremos em dúvida. Para quem não seja tão exigente, ela pode satisfazer. Se for verdade, pode haver, em algum lugar do universo, uma criança muito estranha. Talvez sendo preparada para voltar para cá.

Revista Manchete – 3 de Outubro de 1971
Reportagem na íntegra de João Martins