Confronto de gigantes

Bem, se a idéia era inaugurar esta coluna com um estouro, então aí está. Nada como uma colisão de galáxias para esquentar o dia.

Já não é de hoje que sabemos que a Via Láctea, grande conjunto de gás e poeira que serve de residência para uns 200 bilhões de sóis, dentre os quais o nosso, está num curso de colisão com sua vizinha mais pujante, a galáxia de Andrômeda. Aliás, um aviso para já acalmar os mercados: o “encontro” não vai acontecer em menos de 3 bilhões de anos.

A melhor definição para essa colisão talvez seja “briga de família”. Neste canto do Universo, Andrômeda e Via Láctea são as maiores galáxias (provavelmente nessa ordem) do pedaço, seguidas pela galáxia do Triângulo. Além dessas três, que têm o tradicional formato espiral, o chamado Grupo Local ainda possui uma porção de outras pequenas galáxias, a maioria de formato irregular, como a Grande Nuvem de Magalhães.

Todas estão zanzando pelo espaço sideral num balé próprio, regido pela atração gravitacional que exercem umas sobre as outras. Medindo a luz que vem delas, os astrônomos podem dizer se estão indo ou vindo. Daí o conhecimento de que Andrômeda, hoje a 2,9 milhões de anos-luz de distância (um ano-luz é a distância que a luz percorre em um ano, aproximadamente 9,5 trilhões de quilômetros), se aproxima de nós a uma velocidade aparente de cerca de 500 mil quilômetros por hora.

Mas por que resolvi falar de tudo isso? Como se não bastasse o simples fato de ser muito legal, acontece que uma nova observação astrônomica acaba de dar um sabor mais realista ao futuro que aguarda nossa galáxia.

Uma imagem recém-divulgada por uma equipe do Observatório Gemini Norte, localizado em Mauna Kea, no Havaí, mostra em detalhes um objeto conhecido pelo código NGC 520. Localizado a uns 100 milhões de anos-luz daqui, esse astro na constelação de Peixes é o resultado de uma colisão de duas galáxias, que antes do encontro fatal possivelmente eram muito similares à Via Láctea e a Andrômeda.

É uma boa oportunidade para estudar o que acontece num caso desses. A primeira coisa que chama a atenção na imagem, obtida entre os dias 13 e 14 de julho, é que não se trata de um evento gentil. As duas galáxias perdem totalmente sua elegantes espirais e se mesclam num esquisito bolo de gás e poeira. Com o tempo, seus núcleos tendem a se fundir num só.

Aliás, Andrômeda parece já ter aprontado das suas no passado. No início dos anos 1990, o Telescópio Espacial Hubble revelou que ela parece possuir dois núcleos, separados por uns poucos anos-luz de distância –sinal de que ela já deve ter canibalizado alguma outra galáxia de porte razoável antes que pudéssemos ver. Quanto à “degustação” de galáxias-anãs, é um fenômeno bem comum, tanto para Andrômeda quanto para a Via Láctea: ambas já foram flagradas no meio de um almoço.

A nova imagem também permite estudar os resultados práticos para a vida interna das galáxias em colisão. É possível ver, por exemplo, em tons vermelhos, regiões em que a compressão de gases iniciou um processo intenso de formação de novas estrelas.

Se o choque com Andrômeda parece um cenário por demais melancólico para nossa pobre galáxia, tente respirar um pouco mais aliviado: embora sejam grandes eventos vistos de fora, de dentro talvez nem tenha tanta graça. Simulações de computador mostrando o que aconteceria dentro das duas galáxias durante a reunião parecem indicar que colisões entre estrelas são raríssimas, e que em geral esses astros sobrevivem bem ao processo.

O Sol provavelmente ainda estará por aqui quando acabar a reforma do bairro.