EUA anunciam novas viagens tripuladas

No início do ano passado, em campanha pela reeleição, o presidente George W. Bush já anunciara as bases gerais do projeto, deixando claro que o considera estratégico para a presença americana no espaço e para a própria supremacia dos EUA.

Em 1961, quando vôos tripulados à Lua só existiam na ficção científica, um outro presidente americano, John Kennedy, foi aos microfones para falar de viagens espaciais. “Acredito que esta nação deva se comprometer com o objetivo de, até o fim da década, mandar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança”, disse. O discurso de Kennedy tocou fundo no brio dos americanos. Viviam-se os anos da Guerra Fria e os Estados Unidos travavam uma acirrada corrida espacial com a União Soviética – com grande risco de perdê-la. A oratória do presidente tinha a nobreza das palavras de um general que conclama seus soldados em nome da pátria.

Oito anos depois, os astronautas da Apollo 11 pisavam em solo lunar.
Agora, o anúncio de novas viagens tripuladas à Lua teve um efeito bem diverso. A reação de uma parte significativa da comunidade científica foi perguntar:

Para que voltar à Lua? Os robôs espaciais, hoje, são capazes de fazer praticamente todas as pesquisas e análises que antes dependiam da presença física de astronautas. Os críticos se espantam também com o custo do projeto anunciado pela Nasa: 104 bilhões de dólares. Há quem considere uma loucura investir tanto numa aventura espacial em meio às enormes despesas que representam para os EUA a guerra no Iraque e a reconstrução das regiões devastadas pelo furacão Katrina.

“Com os recursos tecnológicos de que dispomos, não tem cabimento gastar tanto dinheiro para colocar vidas humanas em risco”, disse a VEJA o físico americano Robert Park, da Universidade de Maryland, diretor da Sociedade Física Americana. Além do mais, a Nasa tem a tradição de estourar orçamentos.

Há defensores de novos vôos tripulados que alegam que a construção de uma base terráquea na Lua pode ser estratégica, sim, mas para a espécie humana. “Precisamos aprender a viver no espaço porque o histórico das espécies na Terra sempre aponta para sua extinção”, disse a VEJA o geólogo Paul Spudis, da Universidade Johns Hopkins, coordenador da missão da sonda Clementine, que em 1994 sobrevoou a Lua e mapeou sua superfície.

“A presença do ser humano em outros corpos celestes é a garantia de sua sobrevivência caso a Terra seja destruída por uma catástrofe natural”, ele completa. Seja como for, dificilmente as próximas missões tripuladas mobilizarão a emoção pública como nos anos 60. O momento político é outro, e, acima de tudo, ninguém mais parece ligar para as paisagens poeirentas e estéreis do satélite terrestre.
Fonte: Revista Veja