Falta razão para volta à Lua, diz historiador

“Uma parte importante do que não está nessa arquitetura, e que eu espero que o dr. [Michael] Griffin [administrador da Nasa] aborde nas próximas semanas, é a justificativa para assumir esse desafio. O que vamos fazer assim que chegarmos à Lua?”, indaga Launius, que hoje trabalha na Instituição Smithsonian, em Washington, mas em tempos idos já foi historiador-chefe da própria Nasa.

“Eu espero que esse não seja um pensamento para depois, como foi durante o Projeto Apollo.”
Em 1961, com o vôo inaugural do russo Yuri Gagarin, que colocou a União Soviética à frente dos Estados Unidos na corrida espacial tripulada, o presidente norte-americano John F. Kennedy anunciou o objetivo de enviar um homem à Lua e trazê-lo de volta à Terra em segurança antes do final da década. Nascia o Projeto Apollo, maior gastador de verbas da Nasa na década de 60.

Em 20 de julho de 1969, na missão Apollo-11, Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin se tornaram os primeiros homens a caminhar sobre a Lua. Outros dez astronautas americanos, em cinco missões posteriores, os seguiram. Mas o objetivo do projeto era político, e, com a disputa ganha, ninguém mais voltaria ao satélite natural depois da Apollo-17, em 1972.

“O programa Apollo tinha mais a ver bandeiras e pegadas, e ajudou imensuravelmente na Guerra Fria com a União Soviética”, diz Launius. “Os chefes do Apollo também conseguiram realizar algumas atividades científicas, mas elas foram pensadas a posteriori.

Esses tempos já passaram, e precisamos superar o conceito Apollo para abraçar uma estratégia mais entusiasmante e sustentável.”
Em outras palavras, a agência espacial americana vai precisar estabelecer metas científicas mais claras. Segundo o próprio Griffin, em sua apresentação da arquitetura para o retorno à Lua, os cientistas não carecem de idéias. As opções, de fato, vão desde a chance de fazer estudos geológicos na Lua à possibilidade de construir telescópios e radiotelescópios em solo lunar, beneficiados pela ausência de atmosfera, passando por atividades de mineração e de treinamento para uma futura missão a Marte.

Mas Griffin não apresentou nenhuma dessas idéias em detalhe, nem disse quais seriam as prioridades científicas de um retorno tripulado à Lua. Para Launius, isso pode, a longo prazo, fazer erodir o interesse político pelo projeto.

“E, sem a vontade política, descoberta e exploração não podem acontecer”, diz. “Já temos dois desafios custosos e de alta visibilidade à frente, com a guerra no Iraque e a reconstrução após o furacão Katrina, e a Visão para Exploração Espacial [nome do plano para o futuro da Nasa anunciado por Bush em janeiro de 2004] precisa competir pelos dólares federais com essas duas prioridades e com outras necessidades do país.”

É bem verdade que Griffin prometeu que a Nasa não precisará de aumentos em seu próprio orçamento para fazer o plano caminhar. Mas Launius não compra essas promessas de antemão. “Tendências históricas de projetos anteriores sugerem que, apesar dos esforços para conter custos, eles sempre sobem em resposta a desafios técnicos. O quanto eles vão aumentar o preço é desconhecido, mas provavelmente ele vai subir para mais do que os US$ 104 bilhões apresentados como o custo do plano.” (SN)