Missão em Barra das Garças II

– Uma etapa de minha vida morei em Ceres, também em Goiás, uma região igualmente misteriosa e onde realizei, junto com outras pessoas, diversas vigílias e meditações – recordava sem disfarçar a saudade Vilhena. Ele também lembrou de seus primeiros avistamentos ufológicos, à idade de doze anos, na sua cidade natal, em Santos, e do nosso amigo em comum, Rogério de Freitas ou Jan Van Ellan, uma das maiores expressões da espiritualidade atualmente no Brasil.
Logo conversei com Carlos Alberto Machado, um dos maiores especialistas em todo mundo sobre o chupa-cabras. Seu livro, “Os olhos do Dragão” já é referência obrigada entre todos os investigadores de fenômenos insólitos. No congresso ele iria expor suas últimas pesquisas a respeito de mortes e mutilações humanas supostamente provocadas por Ets.
Depois do café aproveitei para conhecer, a pé, a cidade de Barra do Garças. Trata-se de uma pequena aglomeração urbana que, juntamente com Aragarças e Pontal do Araguaia tem pouco mais de 70 mil habitantes. Plana, com poucos edifícios, chama a atenção ao visitante os típicos orelhões feitos de fibra de

vidro mas com forma de animais, geralmente uma onça em posição de ataque ou uma garça. Existe uma praça central onde o homenageado da estátua é um garimpeiro, símbolo da colonização local. Vale lembrar que a famosa expedição Roncador-Xingu dos irmãos Villas-Boas partiu de Aragarças para desbravar os sertões e contatar com os indígenas abrindo uma polêmica frente de colonização que terminou com a criação do Parque do Xingú, uma espécie de enorme reserva indígena onde se agruparam diversas etnias.
No centro de Barra há uma importante loja de artesanato indígena, a “Arte Indígena da Amazônia”. Para minha surpresa, encontrei uma cabaça decorada que simboliza uma cabeça humana: pertencia à tribo dos Kalapalos que, segundo algumas teorias, seus membros mataram o coronel britânico Harry Percy Fawcett no norte do estado em 1925. Este personagem, considerado como o “verdadeiro Indiana Jones” que inspirou Steven Spilberg, era um místico que procurava os restos de uma cidade perdida construída pelos sobreviventes do cataclismo que fez submergir o continente de Atlântida e que se refugiaram no coração do Brasil.
Mais tarde fui até a rádio Gazeta, onde, juntamente com o projecionologista Wagner Borges e o biólogo-explorador Paulo Anibal Mesquita, fomos entrevistados. Lá conheci uma adolescente cujo tio fora testemunha da aparição de três humanóides na região de Iporá (GO). Na saída veio nos receber o biólogo Fernando Penteado que nos levou até o já nacionalmente famoso “Discoporto” idealizado pelo

político e escritor Valdón Varjão. O lugar está a 4 kms da cidade, no alto da serra Azul, onde encontramos ao já mencionado Genito com um aerógrafo na mão dando os últimos retoques à “carroceria” de um disco-voador pousado sobre uma espécie de tripé.
– O senhor Varjão teve a feliz idéia de realizar este projeto que popularizou nossa região e tem atraído turistas. Não se trata, logicamente, de que os ovnis desçam aqui, mas é verdade que toda esta área é palco constante de sobrevôos de objetos não identificados – dizia-nos o jovem cenógrafo.
Sobre a esplanada natural encontramos também uma espécie de painel onde era inevitável enfiar a cabeça na abertura correspondente para bater uma foto com um corpo de ET. Eis um bom exemplo de humor ufológico. Vi algo semelhante no parque nacional de Yunke, em Puerto Rico, onde o painel estava pintada com a o corpo de um chupa-cabras, entidade que praticamente invadiu a ilha a partir de meados dos anos 90.
Abandonamos o “Discoporto” e nos encaminhamos até a enorme estátua de um Cristo Redentor a redor do qual existe um magnífico mirante. Lá de cima tivemos noção das dimensões do rio Araguaia e das três cidades conurbadas. Fernando Penteado, nosso guia, nos contou como fora protagonista, em três ocasiões, de avistamentos de ovnis sendo que, em uma delas, chegou a intercambiar sinais luminosos (o foco de uma lanterna) com um não identificado. Fernando também contou-me que um tal “senhor Auri”, procedente de Itaipú, veio morar em Barra do Garças em 1998 em função do projeto da construção do “Discoporto”.
– Isso porque fora abduzido por extraterrestres que conversaram com ele por telepatia. Ele me contou que eram altos, de cabeça grande e pele fina. Incumbiram-no de construir um discoporto. Chegou a desenhar o projeto a partir de informações que recebia dos Ets em sonhos. Como naquela época não havia dinheiro para concretizar o projeto ele foi embora da cidade. Isso foi no ano 2003. Desde então não soube nada mais sobre ele…
Pela noite, já no Auditório da cidade, Wagner Borges, com o seu peculiar senso de humor e carisma humano, deu uma palestra sobre viagens astrais. Rompedor de tabús, Borges consegue levar ao público mais amplo um conhecimento aparentemente hermético e uma prática que alguns consideram perigosa.

– Isso se deve à pouca informação a respeito dos desdobramentos astrais, como alguns preferem dizer, ou projeção astral. Ainda existe a crença de que se saímos do nosso corpo podemos nos perder, o cordão de prata pode romper-se…- me comentava Borges a quem tive o privilégio de conhecer em 1989 em São Paulo quando eu ainda trabalhava de repórter no semanário “City News-Jornal da Cidade” onde escrevia a coluna “Vida Alternativa”.
À noite fomos até o restaurante flutuante (sobre o rio Araguaia) “O Boto” capitaneado pelo lusitano Eduardo Jorge da Silva Oliveira.

Para minha surpresa, Eduardo fora um dos criadores do OVNI Grupo 1 de Lisboa nos anos 70, um dos precursores da moderna ufologia portuguesa.
– Naquela época, entre 1976 e 1977, eu era adolescente e fizemos a revista OVNI . Nosso grupo era muito ativo. Faziamos vigílias nas proximidades de Lisboa e discutíamos as novidades ufológicas do mundo inteiro – me comentava aquele empreendedor que, casualmente, viera parar naqueles confins paradisíacos para estabelecer seu negócio.
Durante os dias em que durou o congresso, “O Boto” foi o ponto de encontro dos conferencistas que se deleitaram com as peixadas e outras refeições patrocinadas pelo amigo português.
Rumo ao Vale dos Sonhos Na manhã seguinte, parti juntamente com Paulo Aníbal, rumo ao enigmático Vale dos Sonhos. Fernando Penteado nos levou primeiro até a pequena comunidade homônima onde mora um grupo de mulheres que constituem a associação Pro-Fundação Vespertina. Herméticas, não costumam falar com os visitantes e não buscam propaganda. Realizam um importante trabalho educativo junto à comunidade local, desde o ponto de vista filosófico, ecológico e científico. Algumas das mulheres são ex-professoras universitárias que vieram de grandes urbes até aquele rincão isolado.
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Rumo ao Vale dos Sonhos

Logo seguimos pela estrada, onde são comuns as grandes boiadas de zebús tocadas pelos típicos boiadeiros com sua indumentária regional e com o berrante na mão. Pouco a pouco galgamos a serra Azul, um setor ao sul da mítica Serra do Roncador, e nos detivemos diante de uma formação pétrea de pouco mais de 20 metros de altura, uma espécie de “castelinho” constituído por grandes rochas de cor avermelhada.
A formação está cercada pois se trata uma propriedade particular pertencente à Academia de Ciência Futura, liderada pelo místico e cientista norte-americano J.J. Hurtak. O lugar é utilizado para realizar vigílias e meditações. Hurtak e seus seguidores acreditam na existência de uma civilização subterrânea naquela região, possivelmente de seres descendentes daqueles que um dia vieram de outros planetas. Estes grupos alienígenas sofreram uma série de cataclismos e logo encontraram as chamadas “embocaduras” (entradas para cavernas) onde se abrigaram.
Estes alienígenas realizaram experiências genéticas (mestiçagem) com os nativos e assim surgiu a raça humana. A primeira grande civilização teria surgido justamente ali, no Rocandor, a segunda em Mu (no oceano Pacífico) e a terceira na Atlântida. Logo vieram aquelas que nós conhecemos, como as da Mesopotâmia, Paquistão, Egito, etc. A última grande civilização é a dos Estados Unidos que estaria em plena decadência por repetir muitos dos erros das anteriores: corrupção, guerras, ausência de amor universal, etc. Aliás, tais fatores não são apenas erros comuns aos Estados Unidos mas a outras muitas nações.
Desde este ponto elevado pudemos divisar, ao longe, uma serra com uma formação denominada “A Esfinge”. O grupo de Hurtak tem vários pontos em comum com a Sociedade Brasileira de Eubiose criada por Henrique José de Sousa: ambos defendem que no interior da terra e debaixo do Roncador habita, até hoje, uma civilização mais avançada que a nossa, os chamados “iluminados”. Os ovnis que são vistos sobre a região procederiam não do espaço exterior, senão das profundidades.
Nossa ascensão à Serra Azul nos levou até um dos pontos culminantes desde onde poderíamos ver o Vale dos Sonhos: o Arco de Pedra. Caminhamos entre arbustos e vegetação rasa e seca até alcançar um abismo gigantesco. À nossa esquerda se estendia o arco, uma espécie de ponte pétrea de várias dezenas de metros de comprimento.
– Este é o ponto onde vários grupos se concentram para realizar vigílias e meditações – nos dizia Fernando, enquanto abríamos os braços para receber aquele vento reenergizante e contemplar o belíssimo vale que se prolongava por vários quilômetros. De acordo com os conhecimentos de outro grupo esotérico da região, o Monastério Teúrgico do Roncador, o “arco” é artificial, é a “ponte” de comunicação entre este e outros mundos. Não muito longe dali, no município de Pimentel Barbosa, a Serra do Roncador demonstra porque recebeu esse nome: a terra ronca. Alguns atribuem este fenômeno a desconhecidas convulsões da terra, algo difícil pois não se trata de uma área sujeita a terramotos o movimento de placas. Por outro lado, outros dizem que tal fenômeno se deve à presença de uma civilização subterrânea.
Porém existem outros fenômenos sonoros, talvez mais próximo à parapsicologia e o espiritismo, que se manifestam no alto da Serra do Roncador: são os choros e murmúrios aparentemente de pessoas, mas em um lugar onde não habita ninguém. Seriam fenômenos naturais provocados pelas formações rochosas, dilatações térmicas ou pelo vento?
Descemos a serra e pela rodovia rumo a Nova Xavantina e nos deparamos com um espetáculo soberbo da natureza: o “Dedo de Deus” ou “O Guardião e o índio”, este

último cognome outorgado por Udo Oscar Luckner às elevadas formações pétreas. Luckner, ou o supremo Hierofante do Monastério Teúrgico do Roncador, foi um sueco – de origem bávara – que considerava “O Guardião” uma espécie de “portal dimensional” e que viu naquela região o futuro da humanidade. Sonhador, utopista ou visionário, Luckner, já falecido, deixou um legado místico importante seguido, hoje em dia pela sua viúva, Teresa Luckner, que vive em Barra do Garças.
No retorno a Barra, paramos na estrada esburacada para fotografar um tamanduá bandeira atropelado e morto. Paulo Aníbal extraiu do seu colete com mil e um bolsos um frasco para guardar algumas amostras de pelos do infeliz animal.
– Quero saber as características deste pelo para comparar com os do Mapinguari da Amazônia, supostamente uma preguiça-gigante pré-histórica que sobreviveu no meio da selva – observou o biólogo. Paulo perseguiu os rastros da criatura no Pará, onde obteve informações de vários nativos sobre sua existência real.
– Acho que não é uma lenda, é uma criatura criptozoológica – afirmou tampando o nariz devido ao mal cheiro exalado pelo mamífero já em avançado estado de decomposição.

Pablo Villarrubia é jornalista, escritor e ufólogo. É autor de “Mistérios do Brasil: 20.000 kms através de uma geografia oculta” (Ed. Mercuryo). Reside desde 1992 em Madrid, na Espanha, onde colabora com as principais publicações especializadas em mistérios. Acabou de concluir sua tese doutoral sobre jornalismo arqueológico.
E-mail: pvilmau@teleline.es