Novo Mundo

– Estou detectando uma mudança de rota. – Como assim, que tipo de asteróide é esse? – Não é um asteróide, senhor. Estou recebendo dados Brasat 4: superfícies planas, ângulos retos, sinais de energia… é uma nave! A esta altura o objeto já poderia ser visto a olho nu.

Não passava de mais uma estrela brilhando no céu. Além de alguns astrônomos amadores de plantão, apenas cientistas e militares prestavam atenção naquele ponto celeste em particular. – A nave está tentado evitar a atmosfera, mas não está conseguindo; a força gravitacional já a pegou. – É possível estimar uma trajetória? – Acredito que sim. Pelo ângulo de reentrada a nave deve estar fora de controle, então ela não deve ter forças para alterar o seu curso. Se sobrar alguma coisa, ela deve cair no Pará. – Tenente, me ligue com a Base de Alcântara. Dois caças AMX decolam em direção à nave não identificada que entra no espaço aéreo brasileiro.

O que era instantes atrás apenas um ponto de luz no firmamento, agora é uma estrela cadente que deixa um risco de fogo na escuridão do céu. – Líder do esquadrão para Alcântara; contato visual com o alvo – informou o piloto. – Continue com a perseguição e informe as coordenadas da queda – a resposta veio pelo rádio. Aos poucos, as chamas que envolviam a nave foram se extinguindo. As formas alienígenas da nave foram ficando visíveis a medida que fumaça ia dissipando-se. Subitamente, uma explosão. Em meio aos estilhaços, uma cápsula salvavidas cai intacta em direção às árvores da floresta Amazônica.

Helicópteros do SIVAM, o Sistema de Vigilância da Amazônia, foram os primeiros a chegar no local da queda. A pequena cápsula estava um pouco danificada, mas ainda encontrava-se intacta. Um grupo de soldados e agentes cercavam cautelosamente o objeto quando a escotilha começou a se abrir. Peritos registravam tudo em fotos, vídeos e mais uma gama de instrumentos, que registravam emissões de radiações e substâncias químicas. Entretanto, o que sai da cápsula não é um alienígena, mas um robô, bípede e com a forma humana. Assim que conseguiu ficar em pé, o robô disse em alto e bom português: – Saudações. Levem-me ao seu líder! O PRIMEIRO CONTATO – Como você sabe falar a minha língua? – perguntou o cientista ao robô. – Nós estamos recebendo suas transmissões de rádio há algum tempo.

Eventualmente conseguimos compreender a sua língua… Enquanto o grupo de cientistas escutava o robô alienígena descrever o que parecia mais o enredo de um filme de ficção científica, um militar com insígnias que indicavam uma alta patente observava tudo do outro canto da sala, ao lado de um telefone vermelho. A cada frase do robô, mais uma pergunta era respondida. Cientificamente, tudo começava a fazer sentido. O robô havia sido construído por seres orgânicos, que não têm muitas semelhanças físicas com a forma humana. O robô foi construído como uma cópia de um ser humano porque essa é a forma mais eficiente para funcionamento no planeta Terra.

Além de facilitar a locomoção, um robô humanóide consegue utilizar as mesmas ferramentas e dispositivos que homem. Sobre a exploração espacial, o robô explicou que viagens inter-estelares são inviáveis para seres orgânicos. Mesmo viagens entre planetas de um mesmo sistema exige naves extremamente complexas, com sistemas de suporte de vida, a manutenção de uma atmosfera adequada, a armazenagem de alimentos; todos esses sistemas deixam a nave muito grande e propensa a falhas. Viagens curtas ainda são viáveis, mas a quantidade de combustível necessária para impulsionar esse tipo de nave em viagens entre estrelas é impraticável. Além disso, a duração é muito longa; nenhum ser orgânico conhecido conseguiria viver por tanto tempo. Robôs, por outro lado, não precisam de ar nem de alimentos. Ao contrário dos seres orgânicos, que conseguem dormir por apenas algumas horas, robôs podem permanecer desligados por toda a duração da viagem, sendo automaticamente ativados na chegada ao destino ou, excepcionalmente, em emergências durante a viagem.

É muito mais eficiente assim. – Nós também enviamos sondas automáticas para outros planetas do nosso sistema! – comentou um dos cientistas. – Mas tenho que admitir que nenhum de nossos robôs possui a mesma sofisticação que você. Ao ser indagado sobre como ele conseguiu entrar no sistema solar sem ser detectado pelos sondas de monitoramento da Terra, o robô perguntou: – Vocês estão familiarizados com o asteróide que chocou-se com o quinto planeta do seu sistema solar? – Sim, foi em 1994. Nós o chamamos de cometa Shoemaker-Levy 9.

Todos os telescópios da Terra estavam voltados para Júpiter. Foi de 16 a 22 de julho se não me engano. Levou sete dias para que todos os fragmentos do asteróide caíssem no gigante gasoso. – E vocês acham que isso foi tudo o que aconteceu? Todos ficaram em silêncio. O oficial militar ficou vermelho de raiva ao perceber o que havia acontecido. Todos os idiotas aqui ficaram olhando meia dúzia de pedras caindo em um monte de nuvens… enquanto eles passavam bem debaixo dos nossos narizes! Muito esperto. Mas porque o segredo? – De fato, essa era a nossa expectativa. Enquanto vocês estavam ocupados olhando a colisão com o planeta, nossa primeira expedição pode entrar desapercebida em seu sistema e pousar no lado escuro de seu satélite natural. Na sala de comando do CTA os alarmes voltaram a soar. Satélites em órbita detectam uma enorme descarga de energia na Lua.

– Capitão! Estou detectando mais naves saindo do lado escuro da Lua. – Quantas no total, sargento? – Mais duas…. não, correção: quarenta e duas… meu Deus! Todos olhavam para a tela principal do sala de comando, que mostrava um número cada vez maior de pontos vermelhos piscando. Todos exceto o capitão, que discava rapidamente números em um telefone vermelho. A SEGUNDA EXPEDIÇÃO – Uma vez que a viagem inter-estelar por meio de naves tem seus inconvenientes, nós desenvolvemos uma tecnologia de transporte instantâneo, que é utilizada pelos seres orgânicos ou para transportar grandes volumes de carga. Entretanto, esse transporte só funciona entre Portais.

A missão da nossa primeira expedição foi justamente a construção de um portal no seu satélite natural. – Mas vocês vem fazendo isso desde 1994? – O Portal em si não exige muito trabalho para ser construído. Inclusive, ele vem praticamente pronto com a primeira expedição. O problema é que cada Portal consome uma quantidade enorme de energia para funcionar. Nossos geradores utilizam a força gravitacional entre corpos espaciais, como a que existe entre este planeta e seu satélite, para produzir energia. A instalação dos geradores deve ser feita no núcleo do corpo em questão, para não alterar a sua órbita. É um processo bastante demorado. O toque do telefone vermelho interrompe a conversa.

Os cientistas fazem algumas anotações e voltam-se novamente para o robô alienígena. Após alguns minutos, um tiro acerta um computador que estava próximo ao robô, explodindo o monitor de vídeo. O militar encosta a sua arma na cabeça do robô e diz: – Você me parece uma máquina inteligente o suficiente para deduzir o que vai acontecer se eu acionar essa arma novamente. Nós sabemos das naves em órbita e você vai me dizer agora o que elas vão fazer! Reconhecendo as insígnias do militar, o robô imediatamente responde.

– Trata-se da segunda expedição. Ela é composta por naves que possuem capacidade bélica sim, General. Mas a sua intenção é o comércio. O objetivo dessa expedição é estabelecer uma rota comercial. Existem muitos recursos naturais no seu planeta que são de nosso interesse. – E o que você está fazendo aqui? – Eu faço parte de um grupo com idéias diferentes. Nós enviamos agentes para novos mundos a fim de ajudá-los, prepará-los para a chegada da nossa civilização. Eu vim junto com a segunda expedição, através do Portal, mas eu não faço parte dela.

Assim que chegamos, fui descoberto ao tentar decolar com uma nave em direção ao seu mundo. A minha nave foi abatida e eu acabei fazendo um pouso forçado. A História do meu mundo não é muito diferente da sua: nós também temos discórdia, disputas e guerras. – É mesmo? – exclamou o General ironicamente. – E exatamente como você pretende nos ajudar? – Eu posso começar ensinando a nossa língua e alguns dos nossos costumes. Existem muitas coisas para vocês aprenderem.

Vocês não imaginam como estão errados sobre certos conceitos. Inevitavelmente haverão alguns atritos, mas no final, vocês estarão mais… acho que a palavra mais apropriada é: civilizados. O militar jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada sonora. Todos os olhos viraram-se para ele frente a atitude inusitada.

– Do que você está rindo? – perguntou um dos cientistas que acompanhava tudo. – Interessante você ter mencionado a História – exclamou o militar, voltando-se para o robô. – É interessante porque ela se repete! Nesse mesmo local em que estamos agora havia toda uma civilização, que existiu durante séculos, antes da chegada de exploradores, vindos de outro continente.

Esses exploradores chamaram os nativos daqui de índios. – E o que aconteceu com eles?

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