O CASO BOGADO LA RÚBIA (Fato verídico)

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á estava no meu grupo há mais de 1 ano, período mais do que suficiente para permitir uma análise segura sobre seus hábitos ou tendências. Bogado, definitivamente, não era do tipo fanfarrão, contador de “causos” ou “inventador” de dramas, que narra sobre traumas sociais embaraçosos, para ver se descola uma licença. Bogado faltara ao serviço no dia anterior, e eu era capaz de jurar que aquela fora a primeira vez que faltara ao serviço, desde que se apresentara à minha Divisão. Por isso, achei muito natural a sua atitude de aproximar-se com a continência regulamentar, pedindo licença para falar comigo em particular. Certamente, pretendia apresentar sua justificativa pela falta ao serviço. Resolvi antecipar logo o assunto:

— Bogado, você não é de faltar ao trabalho. Se faltou, há de ter sido por motivo justo. Não há necessidade de rodeios; até porque você não é bom nisso de inventar histórias.

— Chefe, desculpe, mas eu insisto em pedir para o Sr. me ouvir em particular… Eu preciso muito de orientação.

Sentindo que o assunto era, realmente, sério, adentrei com ele à minha sala, determinando, antes, ao recepcionista de plantão, que não fosse incomodado. Ali, eu já cogitava: “Lá vem outra história de marujo preocupado com a namorada que não menstruou. Só faltava acontecer logo com o Bogado”. Assim, bem à vontade, sem o risco de interferências, estimulei-o, em tom amistoso, a falar:

— Pois bem, Bogado. Aqui estamos. Fique à vontade e fale sem pressa.

Bogado, como era de seu estilo, foi direto ao assunto:

— Estou com meu irmão, morre, não morre, no hospital. Ele contou só a mim o que se passou com ele e que o levou a essa situação. O Sr. tem mais experiência do que eu; talvez possa me dar uma orientação.

Em seguida, passou a narrar o acontecido com o seu mano:

O seu irmão, que chamaremos de La Rúbia, era motorista de ônibus. Saía para o trabalho muito cedo, quando a luz do sol era, ainda, só uma frágil claridade no horizonte. Morava num bairro afastado da cidade e, no percurso de sua casa à rodovia, tinha que percorrer um bom pedaço de descampado. Há 2 dias — no dia anterior à ausência de Bogado ao trabalho portanto. La Rúbia, ao se encaminhar ao trabalho, observou, meio oculta por detrás de uma pequena elevação do terreno, no percurso entre a sua casa e a via principal do bairro, uma coisa estranha, posicionada algo afastado da trilha que usava como caminho. Não dava para distinguir bem o que era, porque estava ainda na penumbra do dia que estava por nascer.

Do ponto onde estava, o que ele via parecia a cúpula de um circo, mas tinha aparência metálica; algo como se fosse um prato enorme emborcado. Não conteve a curiosidade e aproximou-se mais, para melhor identificar a coisa. Já estava a cerca de 100 metros do tal objeto, quando viu descer do mesmo, por uma rampa, três seres estranhos. Tinham estatura de cerca de 1,65 m. Pareciam bonecos ou robôs. A cabeça tinha a forma de pêra. Não tinham olhos, mas somente uma espécie de viseira que percorria toda a circunferência da cabeça, demandando a idéia de que enxergava num ângulo de 360 graus.

O tronco tinha forma humanóide, e traziam na cintura um cinto contendo tubos de ensaio.

Os dois braços eram longos e não tinham dedos, terminando na forma de ponta de chicote. Pareciam mais tentáculos do que braços. Tinham, também, aparência metálica, como se fossem feitos de alumínio velho. Não tinham pernas. No lugar das pernas, havia uma única coluna que terminava numa pequena abóboda e que quase tocava no solo. Os seres se locomoviam, planando quase rente ao chão, por assim dizer.

As tais criaturas caminharam em direção a La Rúbia, e este queria correr dali, mas suas pernas não o obedeciam. Os tais seres detiveram-se a uma certa distância do rapaz; um deles ergueu ergueu os tentáculos, como se estivesse apontando na direção do aterrorizado motorista. Neste momento, os braços do moço ergueram-se, também, independente de sua vontade, adotando a mesma posição dos tentáculos que lhe apontavam. Um outro daqueles seres retirou um dos tubos do cinto e apontou em direção ao rapaz.

Eis que, do braço de La Rúbia, escorre sangue, por entre os poros da pele, formando um filete que verteu em direção à abertura do tubo de ensaio. Feito isso, a tal coisa fecha o tubo, recoloca no cinto e, juntamente com os outros dois, aproximam-se de vez do motorista. Pegam-no, então, pelos braços, envolvendo-os com seus tentáculos, e arrastam o infeliz para dentro daquela espécie de nave. Uma vez dentro nave, pôde, então, observar, que outros seres iguais àqueles os aguardavam.

Não havia nada no recinto circular da nave, a não ser uma coluna negra no centro, sobre a qual havia uma espécie de caixa. Um daqueles robôs aproximou-se da caixa negra, acionou alguns comandos e fez surgir uma tela de cinema no ambiente. Na tela, começaram a ser exibidas imagens: uma locomotiva antiga; um cavalo a galope; um cão latindo contra um daqueles seres que, em seguida, dirigiu seus tentáculos em direção ao animal e fê-lo desmilingüir-se e, em seguida, derreter, como cera sob efeito de calor.

Na tela, apareceu também a própria imagem de La Rúbia, completamente despido, vomitando bile e defecando uma massa pastosa, quase em estado líquido. Parecia que eles queriam passar alguma mensagem. Nesse momento, La Rúbia foi levado para próximo da janela panorâmica e contínua que circundava o recinto, e pôde observar que sobrevoavam casas; estavam em pleno vôo. Vendo-se, então, na condição de seqüestrado, La Rúbia conseguiu gritar, mercê do pânico total em que se encontrava. Ante o grito estridente de La Rúbia, todos os seres caíram ao piso. A partir daí, o rapaz não se lembrava de mais nada.

Foi dar por si, caído, junto ao meio-fio, próximo à estação de trem que fica em seu bairro, Paciência. Todo o acontecido consumira um bom espaço de tempo, mas seu relógio estava funcionando e, pela hora que apresentava, desmentia qualquer episódio que tivesse ultrapassado 15 minutos. Se andasse rápido, chegaria à garagem em tempo de assumir a direção de seu ônibus. E assim fez.
Na garagem da empresa, não comentou com ninguém sobre o acontecido. Estava preocupado com a possibilidade de ter sofrido algum ataque epiléptico, acompanhado de algum pesadelo, enquanto ficara desacordado. Como dava tempo para chegar ao trabalho, encaminhou-se para a garagem da empresa, pegou seu ônibus e começou o seu trabalho de motorista.

Pouco depois de iniciada a jornada de trabalho, começou a sentir-se mal, com ânsias de vômitos e vontade incontrolável de defecar. Largou o ônibus numa das paradas e correu a um bar, em busca de uma toilete. Vomitava bile pura e defecava fezes liquefeitas copiosamente, tal como se vira na tela da nave.

Do bar, foi direto para o hospital público mais próximo, que era o Hospital Estadual Rocha Farias. Lá chegando, pediu para avisarem a seus familiares. Bogado foi o primeiro a chegar e ficou fazendo companhia ao irmão hospitalizado. Foi o único a quem La Rúbia contou a história do seqüestro.

Por tudo isso, Bogado não pudera vir ao serviço no dia anterior. Nesse encontro em particular comigo, disse que não estava tão preocupado com a transgressão da falta ao serviço, porque sabia que gozava de bom conceito ante a minha pessoa. Mas o que o preocupava era o estado do seu mano, que piorava a cada hora. No encerramento da entrevista, pediu-me que antecipasse suas férias para aquele dia.

Mandei bater a papeleta de férias imediatamente; levei-a, pessoalmente, ao oficial encarregado que, confiante no meu trabalho, sequer questionou, e despachei Bogado. Mas aquela história ficou ecoando em minha cabeça.

Quando faltavam poucos dias para Bogado regressar das férias, recebo em casa um exemplar da revista Planeta, da qual eu era assinante.

Tomei um susto, quando vi a chamada de capa: “O Caso Bogado La Rúbia” — Os casos são batizados com os sobrenomes dos protagonistas — Comecei a ler a reportagem, ali mesmo no portão. Dizia a matéria jornalística que La Rúbia, não obtendo melhora e sentindo que ia acabar morrendo, resolveu contar a um médico a história do encontro com os tais seres. Por sorte, o médico era um estudioso de assuntos ufológicos.

Este mandou que fosse feita uma varredura nuclear em La Rúbia. Acertou em cheio. Tratava-se de um caso típico de contaminação radioativa, coisa comum em contatos com extraterrestres. A história era verdadeira. Felizmente, com o seu caso recebendo diagnóstico em tempo hábil, La Rúbia pôde ser salvo.

Por estranha coincidência, vim a morar no mesmo bairro — Paciência / Rio — onde moravam Bogado e seu irmão, e devo ter passado, diversas vezes, pelo local do seqüestro, sem saber.