Panspermia: uma breve história

Tudo começou com a idéia da pluralidade de mundos- ou seja, o Sistema Solar não seria o único com uma estrela circundada por planetas.

Já na Grécia antiga filósofos falavam da possibilidade de outros mundos, alguns até com formas de vida distintas das da Terra. Epicuro (341-270 a. C.) sugeriu: “Devemos acreditar que em todos os mundos existem criaturas e plantas, tal como aqui”. Um de seus seguidores, Metrodoro, escreveu: “Considerar a Terra o único mundo povoado no espaço infinito é tão absurdo quanto imaginar que em um campo semeado por inteiro apenas uma planta nascerá”.

A hipótese dos gregos ganhou força quando Copérnico sugeriu, em 1543, que a Terra era apenas um planeta e não o centro do cosmo. Afinal, se a Terra não tem nada de especial e a vida é abundante aqui, por que não em outras partes? Kepler, o primeiro astrônomo a levar o copernicanismo a sério, chegou até a escrever o que muitos consideram o primeiro conto de ficção científica, “O Sonho”, sobre criaturas que viviam na Lua. Em 1686, o francês Bernard le Bovier de Fontenelle publicou “Conversas sobre a Pluralidade dos Mundos”, um diálogo fictício entre um filósofo e uma marquesa sobre a possibilidade de vida extraterrestre.

O livro causou enorme sensação. Para evitar problemas com a Igreja Católica, Fontenelle afirmou que os extraterrestres não eram descendentes de Adão e que, portanto, não deveriam influenciar questões teológicas. Mesmo assim, sua obra foi posta no “Index” (o catálogo de livros proibidos do Vaticano).
Quando os micróbios foram descobertos, a possibilidade de vida extraterrestre ganhou ainda mais força.

Os ETs poderiam perfeitamente ser bactérias exóticas, desconhecidas aqui. Louis Pasteur, que conhecemos pela pasteurização do leite, estudou a questão seriamente. Pensando, no começo de sua carreira, que a vida apareceu de matéria inanimada através de geração espontânea, acabou se convencendo do contrário: a vida que aparece em restos de comida expostos ao ar por um tempo vem de fora, por contaminação.

Seu livro, publicado em 1860, influenciou, entre outros, o grande físico William Thomson, lorde Kelvin, conhecido pela escala de temperatura com o seu nome. Kelvin sugeriu que a vida na Terra veio do espaço, transportada em meteoritos, pedaços de “outros mundos”, que serviam de naves de imigração.

Calculando, corretamente, que a Terra é bombardeada anualmente por toneladas dessas pedras, Kelvin escreveu: “A hipótese que a vida aqui se originou de fragmentos de outros mundos pode parecer fantasiosa e visionária; mas mantenho que deve ser considerada científica”.

Svante Arrhenius, o químico sueco vencedor do prêmio Nobel de 1903, refinou as idéias de Kelvin. Afirmando que impactos de meteoritos são violentos demais para que a vida sobreviva, sugeriu que ela tenha chegado aqui em sementes carregadas pelo vento solar, do mesmo modo que na Terra são carregadas pelo vento. Hoje sabemos que ambas as idéias são possíveis: sementes terrestres podem de fato sobreviver durante anos no espaço.

E as extraterrestres, se existirem, podem ser transportadas em meteoritos, já que as temperaturas interiores não são muito altas. Mesmo assim, a idéia da panspermia evita a questão que, para mim, é a mais interessante: qual a origem da vida, aqui ou em outra parte do cosmo?