Quem sabe contar planetas levante a mão

Nela estão gravadas as coordenadas do Sol e um diagrama de sua família de planetas. De posse do endereço, os alienígenas poderão querer estudar nossa vizinhança. Ao fazer isso, descobrirão um fato desconcertante: os criadores da Pioneer-10 ainda precisavam comer muito arroz com feijão nessa história de exploração espacial.

NasaAstrônomo Carl Sagan, morto em 1996, segura placa de metal afixada à Pioneer-10
É a nossa precária contagem de planetas, denunciando nossa ignorância. Desde 1930, estamos acostumados a ouvir das professorinhas de geografia: “O Sistema Solar possui nove planetas”. É isso que diz a placa de metal da Pioneer-10, assim como os materiais embarcados nas sondas Pioneer-11, Voyager-1 e Voyager-2 –os quatros artefatos construídos por humanos até agora enviados ao espaço interestelar. Mas, há pelo menos uns doze anos, cresce a desconfiança entre os astrônomos de que na verdade nunca soubemos contar planetas.

Menos de dois meses atrás, um trio de pesquisadores liderados por Michael Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos, fez um polêmico anúncio: a descoberta de um décimo planeta ao redor do Sol. Enquanto a organização responsável pela “burocracia celeste” resolve o que fazer desse objeto, os três cientistas mandam um recado a todos: não interromperam a caça e pretendem em breve descobrir novos planetas. “Esperamos descobrir mais alguns objetos grandes no Sistema Solar exterior”, declarou Brown, que não costuma dar ponto sem nó, em nota à imprensa.

Palavra de Mensageiro Sideral: se eles não encontrarem, outros o farão. O problema, na verdade, não é encontrar tantos planetas quantos se queira. O que realmente confunde os astrônomos é o fato de que ninguém sabe exatamente o que é um planeta. Acredite se quiser, mas ninguém se deu ao trabalho, até hoje, de estabelecer uma definição exata.

Robert Hurt/IPACConcepção artística do décimo planeta descoberto pelo grupo de Michael Brown
A noção sempre foi intuitiva. “Planeta”, em grego, significa “estrela errante”, ou seja, um astro que não obedece ao movimento padrão das constelações tradicionais. Na Grécia antiga, Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno eram todos tidos como planetas.

Desde a revolução copernicana e a constatação de que a Terra não é o centro do Universo, a idéia se sofisticou, e os astrônomos passaram a chamar de planeta todo objeto que gira ao redor de uma estrela e que, além de esférico, é suficientemente grande. Mas aí começa a confusão. O que quer dizer “suficientemente grande”?

Urano e Netuno, os dois primeiros planetas descobertos graças aos telescópios, merecem indubitavelmente a classificação. Afinal de contas, são dois gigantes gasosos, bem maiores que a Terra. Já Plutão, são outros quinhentos. Ele foi achado em 1930 pelo americano Clyde Tombaugh. Originalmente, os astrônomos estimaram um belo porte para ele. Uma enciclopédia “Conhecer” de 1966 diz que ele provavelmente tinha 6.000 quilômetros de diâmetro, pouco menos que metade da “cintura” terrestre e quase o mesmo tamanho que Marte. Com isso, o objeto acabou ganhando rapidamente entrada no seleto clube dos planetas. A descoberta, em 1978, de que ele tinha uma lua –Caronte– só fez por reforçar isso. Mas então a maré começou a virar.

Em 1992, os cientistas começaram a descobrir uma porção de objetos na região da órbita de Plutão. Eram todos de pequeno porte, mas confirmavam uma predição feita mais de 40 anos antes pelo astrônomo holandês Gerard Kuiper –havia um cinturão desses objetos gelados naquela região, similar ao conjunto de asteróides entre Marte e Júpiter. Plutão, começaram a desconfiar, era apenas o “chefe do cinturão de Kuiper”.

A despeito disso, em 1999, a IAU (União Astronômica Internacional), órgão responsável por estabelecer quem é o quê no Universo, anunciou que não pretendia expulsar Plutão do grupo dos planetas. Fim da história.

Ou não.

Desde o início do século 21, vários grupos de astrônomos avidamente procuram por objetos no cinturão de Kuiper que possam rivalizar em tamanho com Plutão –que, hoje sabemos, tem míseros 2.300 quilômetros de diâmetro. Em novembro de 2003, o grupo liderado por Mike Brown passou muito perto, ao anunciar a descoberta de um astro batizado Sedna, com uns 1.700 quilômetros. A meta finalmente foi atingida dois meses atrás, com o objeto chamado informalmente por seus descobridores de “Xena” e até agora registrado apenas pelo nome técnico, 2003 UB313. Ele tem provavelmente uns 3.500 quilômetros de diâmetro, bem maior que Plutão. E agora? É um planeta?

A IAU tem hoje três comitês discutindo freneticamente se a solução é dar a ele carteirinha de sócio do cinturão de Kuiper ou do clube dos planetas. Teimosia histórica à parte, está na cara que a solução para acabar de vez com a confusão é expulsar Plutão e corrigir o erro iniciado em 1930, deixando o Sistema Solar com oito planetas.

Os defensores plutônicos argumentam que é bobagem chorar o leite derramado. Historicamente, ele é um planeta. Então, que seja útil assim, servindo como “padrão” para a definição planetária. Se um objeto for menor que Plutão, não é planeta; se for maior, é. Parece razoável, à primeira vista. Mas há muito mais coisas lá fora do que sabemos no momento. Você está pronto para viver num Sistema Solar com 117 planetas, dos quais a maioria nem sequer foi descoberta? É justo para um grandalhão feito Júpiter estar na mesma categoria de astros que são bem menores que algumas de suas luas? Faz sentido tratar restos não aproveitados da formação planetária pelo título de planetas?

Para os astrônomos, é óbvio que Plutão, assim como os demais objetos do cinturão de Kuiper, é tecnicamente diferente dos outros planetas. Não pelo tamanho, mas por sua origem. Planetas são aqueles objetos que, durante a formação do Sistema Solar, conseguiram “limpar” suas órbitas e reinar soberanos naquele pedaço de espaço. Isso exclui todos os objetos do cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter e todos os que estão na borda do Sistema Solar.

O próprio Mike Brown, ao apresentar o Sedna ao mundo, propôs uma definição razoável: planeta é todo objeto esférico que gira ao redor de uma estrela e que representa mais de 50% de toda a massa espalhada na região de sua órbita. Ou seja, se Plutão tivesse mais da metade da massa somada de todos os objetos de cinturão de Kuiper, seria planeta. Como não tem, azar o dele.

Sintomaticamente, ao encontrar o “décimo planeta” e já partir à procura de mais, Brown decidiu virar a casaca e adotar a política de que um planeta é o que as pessoas querem chamar assim. Caso essa política vingue, acabará por gravar seu nome nos livros de história, em meio aos poucos astrônomos descobridores de planetas solares –o que talvez explique sua súbita mudança de opinião.

Com toda essa polêmica classificatória, talvez o melhor de tudo seja simplesmente ignorar qualquer definição engessada de planeta e pensar, para todos os efeitos, que esses objetos podem ser vistos como “mundos” –ambientes estranhos e complexos, que merecem ser estudados. Há uma sonda partindo no ano que vem para Plutão e eu aposto que, quando ela chegar lá, todo mundo vai querer saber como é aquele lugar, planeta ou não.

Voltando à Pioneer-10 e sua travessia de 68 anos-luz até Aldebaran, se os alienígenas forem realmente perspicazes, poderão tirar outra boa lição sobre nós. Podemos não saber tudo sobre nosso Sistema Solar, mas certamente não somos de ficar de braços cruzados enquanto nos faltam respostas.

Salvador Nogueira, 26, é repórter do caderno Ciência da Folha e autor de “Rumo ao Infinito: Passado e Futuro da Aventura Humana na Conquista do Espaço”. Escreve às quintas para a Folha Online.