Raios Gama

Testemunhas dos acontecimentos mais violentos do Universo, alguns ainda misteriosos, os raios gama são produzidos nos “aceleradores de partículas cósmicas”, como as supernovas (estado das estrelas gigantes ao fim de sua existência, quando explodem).

Com a nova rede de telescópios HESS (High Energy Stereoscopic System), na Namíbia, uma equipe internacional fez no verão passado uma primeira observação da nossa galáxia neste âmbito de energia superior a 100 gigaeletronvolts.

Na Via Láctea, os pesquisadores, dirigidos por Felix Aharonian, do Instituto Max Planck de Física Nuclear de Heidelberg (Alemanha), descobriram oito fontes gama de alta energia. Perto de uma delas, a HESS 1825-137, descobriram uma nova, chamada HESS 1826-148, na verdade um objeto já conhecido por sua emissões de raios X: uma binária X chamada LS 5039.

Um sistema binário é um conjunto de dois objetos em órbita, um ao redor do outro: uma estrela comum e um buraco negro, ou estrela de nêutrons (o resíduo de uma estrela gigante que passou pelo estado de supernova).

Mais compacto, o buraco negro, ou estrela de nêutrons, atrai a matéria de seu companheiro, que se acumula, desenhando uma espiral antes de ser absorvida. A reação do buraco negro “canibal” é a emissão de um jato de matéria, que geralmente produz radiação.

Algumas binárias, chamadas microquasares, emitem jatos em que a matéria viaja a uma velocidade próxima a da luz. Os microquasares seriam, de alguma maneira, “modelos reduzidos” de núcleos ativos de galáxias (corações de galáxias que abrigam um buraco negro supermaciço). Estes jatos de matéria de núcleos ativos poderiam, às vezes, produzir raios gama de alta energia.

A binária X LS 5039 é, portanto, uma “candidata a microquasar”, disseram Felix Aharonian e seus colaboradores. Portanto, calcularam os cientistas, a matéria dentro de seu jato viaja apenas a 20% da velocidade da luz. A razão é um mistério.

Tampouco se sabe como os raios gama podem escapar de tal sistema binário, em vez de se converterem em partículas de matéria e antimatéria, como prevê a teoria. Ainda falta muito, portanto, para que se compreenda melhor esta nova fonte de energia, a natureza do objeto compacto e a equação física que causa esta emissão gama de alta energia.

Com quatro telescópios de 13 metros de diâmetro, a HESS, detector mais sensível de raios gama de três altas energias, emprega há vários anos mais de 100 pesquisadores e engenheiros alemães, franceses, britânicos, irlandeses, tchecos, armênios e sul-africanos.

Fonte: Folha de S.Paulo