Retorno à Lua

O homem não visita a Lua desde dezembro de 1972, quando o astronauta americano Eugene Cernan, a bordo da nave Apollo 17, voltou para a Terra carregando um monte de pedras que serviriam a uma análise mais detalhada do solo lunar. Desde então, por mais de três décadas, a Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, avaliou que nada justificaria os altos investimentos e riscos de novas missões tripuladas ao satélite. Agora, os americanos querem voltar à Lua – se tudo der certo, em 2015 e, desta vez, para ficar. A idéia do presidente George W. Bush é construir uma base lunar permanente para desenvolver e testar novas tecnologias de exploração espacial e a sobrevivência do homem em ambientes fora da Terra. Nesses planos, a Lua seria uma escala obrigatória na rota das viagens tripuladas a Marte. Os estudos de viabilidade ainda estão no início, mas a Nasa já tem cronograma definido e os especialistas, algumas propostas concretas.

O interesse pela Lua renasceu graças a um elemento fundamental à vida e abundante na Terra, mas bem mais raro em outros mundos – a água. Até o início da década de 90, acreditava-se que a Lua era uma esfera rochosa árida. Mas, em 1994 e 1998, duas sondas da Nasa, a Clementine e a Lunar Prospector, acharam indícios de gelo em crateras próximas aos pólos norte e sul (veja o quadro abaixo). A suspeita ainda não foi confirmada, mas faz sentido. As reservas de água teriam sido plantadas ali pelos milhares de cometas que bombardearam o sistema solar em seus primórdios, há cerca de 3,8 bilhões de anos. Foi nessa época que, calcula-se, a água surgiu na Terra. Então, não seria de estranhar que a Lua também tivesse recebido seu quinhão, parte do qual teria escapado de evaporar por ter caído em crateras profundas, perto dos pólos, que jamais recebem a luz do Sol.

Com água à mão, a ocupação da Lua se torna muito mais fácil e proveitosa. É possível manter vivos homens, animais e lavouras. Com a separação do oxigênio e do hidrogênio, fabrica-se combustível de foguetes. Tudo isso reforça a idéia de que vale a pena montar uma filial da Terra na Lua, e de que ela deve se localizar perto de seus pólos. Nessas regiões, o clima é mais ameno: varia em torno dos 50 graus negativos. Já no equador lunar, a temperatura varia de 100 graus positivos durante o dia a 180 negativos à noite. Sabe-se também que o ideal é estabelecer a colônia terráquea num local em que a insolação seja constante. Uma equipe liderada pelo astrônomo Ben Bussey, do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, acha que encontrou um terreno dos mais aprazíveis. Num artigo publicado recentemente na revista científica Nature, a equipe propôs a cratera Peary, bem perto do pólo norte, como candidata a sediar a base. Essa cratera está muito próxima de outras depressões, prováveis depósitos de água, e suas margens parecem receber luz do Sol ininterruptamente, ao menos no verão. “Ainda é preciso verificar como a cratera é iluminada no inverno e compará-la a outras, no pólo sul. Seja como for, os pólos lunares representam locais ideais também para a obtenção de energia solar”, disse Bussey a VEJA.

Aproveitar os recursos naturais da Lua é uma necessidade diante de um projeto cujo orçamento mais conservador prevê gasto superior a 120 bilhões de dólares apenas na próxima década. Nesse aspecto, uma das maiores promessas é o regolito – a poeira que recobre o solo lunar, microestilhaços de rochas destruídas no passado sob o impacto de asteróides. O regolito é um pó tão fino que penetra por qualquer vão minúsculo. Os astronautas do programa Apollo sofreram com esse talco, que riscava viseiras e lentes e emperrava as articulações dos uniformes. Mas os engenheiros sabem que o farelo impertinente pode servir de matéria-prima na construção de painéis solares e que ele contém oxigênio em sua composição. A Nasa acaba de lançar um concurso: ganha 250.000 dólares quem desenvolver o primeiro sistema eficiente e rápido de extrair oxigênio do regolito. Os experimentos são feitos com cinzas vulcânicas, de propriedades semelhantes às do solo lunar. “A base lunar será uma bênção não só para testar novas tecnologias de exploração espacial, mas também para o avanço da ciência. Ela permitirá o estudo mais aprofundado de processos geológicos e a observação dos astros por telescópio a partir da Lua”, disse a VEJA o astrônomo americano Paul Spudis, da Universidade Johns Hopkins, que há vinte anos avalia o relevo lunar em busca do melhor endereço para a colônia terráquea.