Ubajara – O Túnel dos Fenícios no Brasil

Decidi seguir os passos do sábio austríaco pelas areias do deserto do Ceará. Ali se destaca um grande oásis, encravado na Serra da Ibiapaba, a 330 quilômetros de Fortaleza. Trata-se do Parque Nacional de Ubajara, o último reduto de Mata Atlântica no nordeste do país. Cheguei ao povoado de Ubajara em um ônibus, vindo de Teresina, Piauí, a 300 quilômetros de distância.

Ao descer do ônibus, vi-me rodeado por uma multidão de cabras que pastavam tranqüilamente pelas ruas da cidade. A poucos metros de distância, se erguia uma grande estátua de um índio dentro de uma canoa com seu remo. Mais tarde, soube de uma lenda do século 16 que falava da existência de um velho cacique tupi-guarani, de muito poder, que vivia em uma gruta na Serra da Ibiapaba. Os primeiros portugueses que ali chegaram viram o cacique navegando por rios e riachos de rara beleza.

Seu nome era Ubajara, ou seja, “senhor da canoa”.

A menos de cinco quilômetros do povoado, encontra-se a entrada do Parque Nacional (o menor do Brasil, com 563 hectares); de um mirante, podem-se observar as serras achatadas e repletas de vegetação, contrastando com a secura das regiões planas. À beira do abismo, existe um teleférico, que desce uns 420 metros e conduz os passageiros à entrada de uma grande caverna.
Procurei outra maneira de chegar à caverna, mais difícil, porém mais interessante: caminhar cinco quilômetros por um atalho selvagem para observar macacos, grandes roedores e algumas cobras. Ali se encontra a Cachoeira do Caipora, que provavelmente leva esse nome devido às aparições do ser mítico, protetor dos animais, que tem como detalhe peculiar o fato de ter os pés virados ao contrário, como seu parente do nordeste argentino.

A entrada para esse mundo subterrâneo foi descoberta pelos bandeirantes em 1738; eles confundiram o brilho das estalactites com veios de prata. Na parede, a poucos metros da entrada, existe uma imagem de Nossa Senhora de Lurdes; até os anos 50, era ali que terminava uma Via-Sacra que simulava o calvário de Cristo, tradição que hoje se perdeu.

A caverna tem 1.120 metros de extensão e 70 de profundidade, mas ainda existem alguns caminhos que não foram explorados e mapeados. Num artigo de Schwennhagen, publicado em setembro de 1925, no jornal A Imprensa, de Sobral, no Ceará, o estudioso colocava objeções à origem natural da gruta, atribuindo sua artificialidade aos antigos tupis. No artigo, ele dizia que, no alto a Serra da Ibiapaba, havia um corte amplo, em forma de anfiteatro, com encostas simétricas de 500 metros de altura; no local, abre-se uma fenda e, mais acima, encontra-se a entrada da grande gruta.

“Mais tarde”, escreveu, “os padres decidiram construir uma caverna com maiores dimensões. Assim começou a grande obra, cuja execução demorou talvez duzentos ou trezentos anos”.
A Serra de Ubatuba, próxima de Ubajara, foi outro local escolhido pelos fenícios para explorar riquezas minerais, segundo a teoria de Ludwig Schwennhagen. “[…] ali também existe um mineral com o brilho da prata, que podia ser chumbo ou estanho. A distância do povoado de Ubatuba até à cidade de Viçosa (Viçosa do Ceará) é de 30 quilômetros; as grandes jazidas de cobre começavam na metade do caminho… o cobre e o estanho foram, para os fenícios, riquezas tão importantes quanto o ouro”, escreveu Schwennhagen em seu livro Antiga História do Brasil: 1.100 a.C. a 1.500 d.C. (1928).
Ainda segundo o autor, de Viçosa para o sul, estende-se uma ampla zona de mineração, dentro da Serra da Ibiapaba, com dúzias de colinas, túneis e grutas. “[…] O ponto mais interessante é a imensa gruta de Ubajara, com doze grandes salões e mais de mil metros de corredores subterrâneos, além de uma parte até agora inexplorada.

A respeito dessa gruta, surgiu uma grande controvérsia entre o autor deste tratado e os partidários da teoria da erosão, que declaram a gruta como obra da natureza… não se pode duvidar que a gruta de Ubajara foi uma fábrica de salitre, cujo mineral foi extraído devido a um sistema de filtragem artificial usado ainda hoje na Síria e na Ásia Menor”.

Schwennhagen recordava que existia uma lenda segundo a qual, da gruta de Ubajara, saía um rio subterrâneo, rumo ao Estado do Piauí, que, na época de seca, formaria uma passagem pela qual as pessoas podiam andar muitas léguas.

Hoje em dia, a artificialidade da caverna é contestada pelos geólogos. Mas ainda sobrevive a crença de que existe um grande rio subterrâneo que conecta a gruta com as formações de Sete Cidades. Por esse caminho subterrâneo, teriam desaparecido para sempre os caçadores de tesouros e outros curiosos que tentaram, sem êxito, fazer o percurso de 140 quilômetros em linha reta. Outros mistérios: há muitos anos, em toda a região, tem sido vistos OVNIs, alguns de grandes dimensões, quase sempre flutuando por cima das serras.

Pablo Villarubia Mauso